domingo, 16 de junho de 2013

Polícia ou Exército?


Para quem ainda não me conhece, sou defensor da polícia. Não de forma absoluta, de desvios, mas da necessidade de se exigir os melhores procedimentos e termos os melhores profissionais que o dinheiro e condições de trabalho podem manter. O porque? A resposta está nas páginas policias e especialmente na primeira página de todos os jornais esta semana por conta dos protestos contra o aumento de passagens de onibus. Ela deve garantir direitos, não violá-los. São nossos bens mais caros. Pode nos custar caro financeiramente, mas temos o direito de ver um serviço bem prestado e de reclamar quando não o é. Hoje não temos nada disso.

Policiais não são seres especiais. São como qualquer cidadão. A diferença? Como outros profissionais, conhece e vê coisas que muitos não vêem, tem uma visão peculiar de sua área de atuação. E isso se torna um problema, não apenas aqui, mas no mundo todo. O entendimento que possuem dos crimes e do que é paz social se choca com a visão de vários outros grupos.

Motivos? Bem, um policial militar, quando atua com essa “truculência” que a sociedade vem reclamando, não o faz por pura maldade ou por ser psicopata (em tese): ele o faz por medo (costumam estar em minoria) e porque acredita que está fazendo o melhor para a sociedade, a quem deve proteger. Está cumprindo o dever de manter a ordem. Devemos lembrar que em outros países também se reprime certas manifestações e há reclamações.

Faça uma pesquisa simples. Pergunte na rua quem concorda com o movimento das passagens. Mesmo que os apoiadores sejam maioria, parcela significativa achará que não passa de baderna. Então este policial - que desde sua formação é doutrinado a “manter a ordem, garantir a segurança das pessoas de bem e respeitar as determinações superiores” - não pode fazer nada diferente do que está fazendo. O policial ACREDITA no que faz, e acredita ser o melhor. E é obrigado pela legislação, claro. O policial ACREDITA que tem determinado poder e por isso o usa, mesmo sendo incompatível com o momento. Cientistas sociais que estudaram as polícias pelo mundo relatam desta forma, e aqui não é diferente.

Para continuarmos, devemos lembrar a função principal de um exercito: defender sua nação do inimigo. Ele pode estar em nosso território ou no estrangeiro, mas, em termos conceituais, está definido: outro exército, guerrilha, grupo paramilitar. Mas e quando é um cidadão?

Então vejamos a idéia de policia: a que garante a ordem, previne crimes, apoia e dá suporte à população. Em alguns países, como no nosso caso, reprime delitos (investigação). Seja como for, deve estar  a seu lado, mesmo sabendo que todo deslize repercute mais que seus acertos.

Polícia Militar, como conceito, é coisa de ditadura militar. Polícia não é exército. POLÍCIA DEVE TER HIERARQUIA, MAS NÃO DEVE SER MILITAR. Porque? Pelo relatado acima. Porque policial tem que PENSAR, tem que ter liberdade para questionar, analisar e decidir. Na hora certa, claro, senão vira bagunça. Não pode ver quem desobedece a lei como inimigo. Deve ter direitos como qualquer cidadão. Afinal, ele DEVE SER UM CIDADÃO.

E, pela nossa legislação, um militar não pode. Militar tem direitos e obrigações inerentes ao regime, mas é instado a abrir mão de vários da vida civil. É um grupo apartado e dividido internamente pela própria carreira (em sentido amplo). Pode funcionar bem para as Forças Armadas, mas jamais para uma polícia. O policial tem que viver o dia-a-dia, a liberdade, para poder garanti-la. Questionar ordem superior não pode ser crime tão ou mais grave que abuso de poder ou corrupção, por exemplo.

A Policias Militares doutrinam seus servidores a lutarem contra o inimigo e, como um bom exército que são. Por mais que tentem evoluir nos pensamentos, análises e doutrinas, esta postura é inerente a tal regime, faz parte dele tanto quanto  Hierarquia e Disciplina. É uma visão de mundo e não está errada. Só não é mais adequada à nossa sociedade.

Porque? Por tudo isso que vemos. A “desordem” deve ser combatida com veemência, e os desordeiros são os inimigos. No dia-a-dia, o manifestante, o ladrão, o estuprador, o bêbado, passam a condição de inimigos. A sociedade pede providências, por vezes corrobora os excessos (“bandido bom é bandido morto”, "borracha nos desordeiros") e, sob tal pressão, o policial pensa fazer o certo batendo ou até executando. Sim, muitos acham que é para defender as “pessoas de bem”. Quem não conhece, ao menos a história, de um policial que “matava a bandidagem da vizinhança pra não se criarem lá”?

Muito se fala da truculência policial, que são uns estúpidos e coisas piores. Se fossemos nós, faríamos diferente? O que se oferece ao policiais? O sistema policial brasileiro é o que deveria ser? A qualificação que se exige na admissão e se oferece na ativa são compatíveis com o nível de profissionalismo que queremos? Os salários tem a capacidade de atrair e manter pessoas qualificadas nas instituições? Existe uma carreira de verdade?

Não é para vermos o policial como vítima. Como profissional deve saber o que a lei lhe permite fazer. Pode até estar convencido que deve fazer "o certo pelo meio errado", mas sabe que há conseqüências. É da lista dos profissionais que o erro pode custar muito caro: uma vida.

 Penso ser hora de debatermos muitas coisas. A Europa criou um órgão para discutir e padronizar métodos de policiamento e investigação enquanto nós mantemos um sistema do tempo de D. João VI e achamos bonito. Temos nossas polícias violentas, ineficientes, despreparadas, profissionais desestimulados, baseadas em castas e, no caso das militares, algo reinstituído pelo Regime Militar para controlar os Estados e a própria população. Passou da hora de mudar. Por isso proponho (mais) este espaço, para que se aumente o debate sobre um assunto tão importante e tão relegado pela nossa sociedade e nossos governantes: a segurança pública.
E por mais boa vontade que muitos de nossos policiais tenham, no atual cenário não há como melhorar nada.