Para quem ainda não me conhece, sou defensor da polícia. Não de forma absoluta, de desvios,
mas da necessidade de se exigir os melhores procedimentos e termos os melhores
profissionais que o dinheiro e condições de trabalho podem manter. O porque? A
resposta está nas páginas policias e especialmente na primeira página de todos
os jornais esta semana por conta dos protestos contra o aumento de passagens de onibus. Ela deve garantir direitos, não violá-los. São nossos
bens mais caros. Pode nos custar caro financeiramente, mas temos o direito de ver um serviço bem prestado e de reclamar quando não o é. Hoje não temos nada disso.
Policiais não
são seres especiais. São como qualquer cidadão. A diferença? Como outros
profissionais, conhece e vê coisas que muitos não vêem, tem uma visão peculiar de sua área de atuação. E isso se torna um
problema, não apenas aqui, mas no mundo todo. O entendimento que possuem dos
crimes e do que é paz social se choca com a visão de vários outros grupos.
Motivos? Bem,
um policial militar, quando atua com essa “truculência” que a sociedade vem
reclamando, não o faz por pura maldade ou por ser psicopata (em tese): ele o
faz por medo (costumam estar em minoria) e porque acredita que está fazendo o
melhor para a sociedade, a quem deve proteger. Está cumprindo o dever de manter
a ordem. Devemos lembrar que em outros países também se reprime certas manifestações e há reclamações.
Faça uma
pesquisa simples. Pergunte na rua quem concorda com o movimento das passagens.
Mesmo que os apoiadores sejam maioria, parcela significativa achará que não
passa de baderna. Então este policial - que desde sua formação é doutrinado a
“manter a ordem, garantir a segurança das pessoas de bem e respeitar as
determinações superiores” - não pode fazer nada diferente do que está fazendo.
O policial ACREDITA no que faz, e acredita ser o melhor. E é obrigado pela legislação,
claro. O policial ACREDITA que tem determinado poder e por isso o usa, mesmo
sendo incompatível com o momento. Cientistas sociais que estudaram as polícias
pelo mundo relatam desta forma, e aqui não é diferente.
Para continuarmos, devemos lembrar a função principal de um exercito: defender sua nação do inimigo. Ele
pode estar em nosso território ou no estrangeiro, mas, em termos conceituais,
está definido: outro exército, guerrilha, grupo paramilitar. Mas e quando é
um cidadão?
Então vejamos a idéia de policia: a que garante a ordem, previne crimes, apoia e dá suporte à população. Em alguns países, como no nosso caso, reprime delitos (investigação). Seja como for, deve estar a seu lado, mesmo sabendo que todo deslize repercute mais que seus acertos.
Então vejamos a idéia de policia: a que garante a ordem, previne crimes, apoia e dá suporte à população. Em alguns países, como no nosso caso, reprime delitos (investigação). Seja como for, deve estar a seu lado, mesmo sabendo que todo deslize repercute mais que seus acertos.
Polícia
Militar, como conceito, é coisa de ditadura militar. Polícia não é exército. POLÍCIA
DEVE TER HIERARQUIA, MAS NÃO DEVE SER MILITAR. Porque? Pelo relatado acima.
Porque policial tem que PENSAR, tem que ter liberdade para questionar, analisar
e decidir. Na hora certa, claro, senão vira bagunça. Não pode ver quem desobedece a lei como inimigo. Deve ter direitos como
qualquer cidadão. Afinal, ele DEVE SER UM CIDADÃO.
E, pela nossa
legislação, um militar não pode. Militar tem direitos e obrigações inerentes ao
regime, mas é instado a abrir mão de vários da vida civil. É um grupo apartado e dividido internamente pela própria carreira (em sentido amplo).
Pode funcionar bem para as Forças Armadas, mas jamais para uma polícia. O
policial tem que viver o dia-a-dia, a liberdade, para poder garanti-la.
Questionar ordem superior não pode ser crime tão ou mais grave que abuso de
poder ou corrupção, por exemplo.
A Policias
Militares doutrinam seus servidores a lutarem contra o inimigo e, como um bom
exército que são. Por mais que tentem evoluir nos pensamentos, análises e
doutrinas, esta postura é inerente a tal regime, faz parte dele tanto
quanto Hierarquia e Disciplina. É uma
visão de mundo e não está errada. Só não é mais adequada à nossa sociedade.
Porque? Por
tudo isso que vemos. A “desordem” deve ser combatida com veemência, e os
desordeiros são os inimigos. No dia-a-dia, o manifestante, o ladrão, o estuprador, o bêbado,
passam a condição de inimigos. A sociedade pede providências, por vezes
corrobora os excessos (“bandido bom é bandido morto”, "borracha nos desordeiros") e, sob tal pressão, o
policial pensa fazer o certo batendo ou até executando. Sim, muitos acham que é para defender as “pessoas de bem”. Quem não conhece, ao menos a história, de
um policial que “matava a bandidagem da vizinhança pra não se criarem lá”?
Muito se fala
da truculência policial, que são uns estúpidos e coisas piores. Se fossemos
nós, faríamos diferente? O que se oferece ao policiais? O sistema policial
brasileiro é o que deveria ser? A qualificação que se exige na admissão e se oferece na ativa são compatíveis com
o nível de profissionalismo que queremos? Os salários tem a capacidade de
atrair e manter pessoas qualificadas nas instituições? Existe uma carreira de verdade?
Não é para
vermos o policial como vítima. Como profissional deve saber o que a lei lhe
permite fazer. Pode até estar convencido que deve fazer "o certo pelo meio errado",
mas sabe que há conseqüências. É da lista dos profissionais que o erro pode custar muito caro: uma vida.
Penso ser hora de debatermos muitas coisas. A
Europa criou um órgão para discutir e padronizar métodos de policiamento e
investigação enquanto nós mantemos um sistema do tempo de D. João VI e achamos
bonito. Temos nossas polícias violentas, ineficientes, despreparadas,
profissionais desestimulados, baseadas em castas e, no caso das militares, algo
reinstituído pelo Regime Militar para controlar os Estados e a própria
população. Passou da hora de mudar. Por isso proponho (mais) este espaço, para que se aumente o debate sobre um assunto tão importante e tão relegado pela nossa sociedade e nossos governantes: a segurança pública.
E por mais boa vontade que muitos de nossos policiais tenham, no atual cenário não há como melhorar nada.
E por mais boa vontade que muitos de nossos policiais tenham, no atual cenário não há como melhorar nada.